Toda a sua face ondula ao vento, se contorce, dissolvida e recomposta em novas formas. Toda — menos os dois olhos pretos fixos.


A névoa furtou o horizonte. Não mais se vê onde o céu termina sua tarefa de enclausurar a terra e o mar. Mas quem caminhar ao longo da praia verá o desvelar de outra linha, a não mais do que duzentos passos de si — a borda reta da Terra. É este um pesadelo de Colombo?
O seu prosseguimento oferece outra estranha vista: além daquela nova fronteira, vê-se agora a silhueta de dois homens (homens?), que flutuam por sobre a linha. Serão talvez titãs, vigiando o grande Exterior para o caso de algum humano dar um passo em demasia para fora de sua pequenez.
Ela nunca se fecha. Faz ser lembrada a sua presença por meio de uma sensação constante: um fraco desconforto, que, subtraída a familiaridade decorrente de sua perenidade, imporia dificuldades em o reconhecer, que dirá em lhe atribuir uma causa. Mas é também capaz de se amplificar e, com seu importuno, ofuscar os sentidos. Hesito em chamar seu efeito neste estágio de dor, porque não é concreta. Um breve exame provaria incólume meu corpo. Ainda assim, ela teima em não se fechar.
Estou acostumado o suficiente a ela para saber o que inicia suas crises, mas não para dominar os meios de fazê-las recuar. O primeiro conhecimento é tanto mais simples de se obter porque ela responde a um conjunto muito restrito de estímulos; o segundo me escapa porque tais estímulos não dependem da presença direta da sua origem — basta-me, por vezes, um resíduo de memória para que ela, a chaga, se anuncie novamente. Fica claro por isto que chamo esta origem de tal em termos psíquicos; seria difícil atribuir à sua contraparte concreta, de fato, qualquer contorno de dito ou ação que desse àqueles pensamentos base real.
Tão perene quanto esta insólita cócega de aguilhão, porém, é o sorriso que parte do que há de mais tangível em seu gérmen — um sorriso de olhos, mais do que de lábios. E mesmo aquilo não me é dado tanger: eis o cerne desta condição. A aproximação demasiado freqüente, por força de amistoso costume, desta fonte trabalha para manter fresca e aberta aquela mácula, que, por grotesca ironia, seria prontamente anestesiada, encerrada e esquecida se a sua proximidade fosse constante. De qualquer forma, pela impossibilidade desta constância, resta-me conceber uma forma de me afastar dela, ou de afastá-la de mim, em definitivo.
Até agora, limitei-me ao silêncio sobre o assunto, que, até onde posso saber, tem sido eficaz em mantê-lo velado. Entretanto, dediquei muito tempo a elucubrações sobre a maneira de produzir este afastamento. Esta sugestão de solução esbarra, contudo, numa afirmação anterior. A ausência não basta para a cessação; dá apenas espaço para um concatenar de fragmentos de memórias e idéias que nada faz senão avivar a pontada. Nestes experimentos mentais, engendro formas de solucionar o problema, seja por aproximação, seja por afastamento. O que cai no primeiro grupo é nutrido, por mera indulgência, por um período certamente longo demais, mas invariavelmente, pelo ridículo da idéia de o achar viável, julgo forçoso descartar; esta indulgência e este atraso, por si, não produzem senão agravo. O que aborda a distância como solução é mantido por mais tempo, mas não produz traço bastante de resolução para que seja praticado.
É-me recorrente pensar que, se habituar-me a esta condição não é sequer imaginável e se o torpor do tempo não torna possível que ela seja ignorada, encerrar a questão é possível apenas de maneiras drásticas. Uso o plural de propósito, porque certo número de possibilidades já me ocorreu. É pouco provável que o afastamento brusco e simples me traga o resultado necessário; da percepção da falta de razão em seu acontecimento, fatalmente viriam questionamentos que o colocariam em frágil posição. Mais importante do que isso, talvez, é a constatação de que, ao apenas me afastar, não há extinção desta condição, e o desejo e a esperança de um retorno haveriam de manter viva a carne exposta. O que é preciso é a ruptura — completa, decisiva.
Mas não há apenas formas diversas de se obter a ruptura e o afastamento: há rupturas e afastamentos diferentes.
Como o puro afastamento voluntário seria, em última instância, inefetivo, passei a considerar a possibilidade de realizá-lo em conjunto com alguma ação que auxiliasse o propósito de o tornar duradouro. Para tanto, será de certa valia que esta ação explique tal partida e, de certa forma, a torne desejável. Isto exige que me apresente, de súbito, sob uma luz muito desfavorável. Provavelmente, seria suficiente que expusesse, em termos claros, a natureza do problema, que decerto causaria imediato repúdio e tudo daria por concluso. Mas isto se me afigura pouco praticável, em parte porque esta comunicação é já uma empreitada que mereceu para si o nome de idéia fixa, mas não o de ação; e pouco há em meu estado que sugira que este impulso virá de qualquer maneira. Esta hesitação, por sua vez, é fortificada pela segunda parte: o risco de que esta comunicação alcance outras partes a quem jamais desejaria informar, o que equivale, na minha ótica, a provocar um segundo dano, este não ao flanco, mas à face, mais similar ao de uma figura mítica errante qualquer. Por estas razões, ocorreu-me procurar subterfúgios que trouxessem consigo, pelo mesmo processo, aquela ruptura, mas nada pude inventar que não esbarrasse nos mesmos percalços que desvelar meu real motivo traria. Minto: em uma ocasião, quase fui bem-sucedido ao usar o primeiro meio-pretexto que encontrei para provocar animosidade, mas esta, por mais que eu a tenha insuflado, se mostrou fraca para sustentar minha tentativa de fazer se seguir a ela meu desaparecimento. Fracasso após o qual me vi, por algumas circunstâncias, mais enredado do que jamais antes — e, por isso, aquele incômodo é ainda mais freqüente e mais intenso, de tal maneira que me encontrei incapaz de encarar aquele amistoso gesto de olhos sem o sentir, o que agora ameaça entregar a sua natureza. Isto me conduziu, por fim, a um estado de prostração, a uma sensação de completa impossibilidade de movimento.
Foi assim que cheguei à última proposição de ruptura, e receio que o adjetivo a descreva muito adequadamente. Ruptura absoluta. Decerto parecerá drástico, talvez mesmo em excesso, mas dediquei algum tempo a maquinar formas de pô-la em prática, pois a idéia, durante as crises mais agudas, chega muito perto de me parecer não apenas razoável, mas inelutável. Naturalmente, se a descrevo nestes termos, é porque ainda não a apliquei, e em segunda análise, com os sentidos menos embotados, é evidente que esta idéia de solução produz uma gama de outras complicações. Já me ocorreu mesmo que um observador sagaz poderia, com a evidência do ato e o auxílio de outras informações disponíveis das fontes certas, reconstruir minha motivação — o que é notável apenas como ironia, posto que nada disso me poderia ser relevante em meu então imperturbável silêncio. O fato é que não sei ainda o que me deteve nos últimos agravamentos deste caso, nem por quanto tempo o poderá fazer.
Apenas o saberei quando, mais uma vez, vierem — e é assim, em ondas, que sempre vêm — os espasmos desta ferida de Amfortas.
Achei este vídeo por acidente no YouTube: é um acompanhamento do movimento das vozes da fuga em si menor do primeiro livro do Cravo Bem-Temperado. Por um lado, é absolutamente brilhante como forma de ilustrar a complexa construção da fuga. Por outro, achei-o também bastante bonito, e nem preciso falar da música. Pena apenas que é o som é em midi.
Noite passada, sonhei que tinha que entregar um CD a alguém. Em Londres. E, por algum motivo, o meio escolhido para fazer a viagem foi a travessia do Atlântico a nado.
A primeira imagem de que me lembro, na verdade, é próxima da chegada: é noite, estou pensando sobre como a passagem por Paris foi tranqüila — como se o sonho já não fosse incongruente o bastante —, quando vejo uma forma que se projeta suavemente para fora da água. Percebo que ela se move na mesma direção que eu, mas não rapidamente o bastante para que eu não a alcance. É uma baleia, não muito grande, com uns sete metros de comprimento; ela é azul-escura e tem olhos negros, muito bonitos. (Com ajuda da Wikipédia, vejo que ela lembra uma baleia minke, mas o topo da cabeça é mais arredondado.)
Acompanho-a demoradamente, até que concluo que tenho que ir mais rápido do que ela para entregar o CD no prazo. Deixo-a para trás, e logo chego a um porto — mais uma inconsistência geográfica, pois precisaria nadar Tâmisa acima. Entrego o CD a uma pessoa e olho para o mar, procurando a baleia.
Neste ponto, o sonho corta para o meu quarto, banhado em suave luz amarelada. Estou deitado na cama, e uma mulher entra no quarto e me lembra que tenho que cuidar da baleia. Olho para a esquerda e vejo ela, agora muito menor, com uns dois metros do focinho à cauda, deitada no piso. Parece à vontade no ambiente seco. A mulher sai, e a baleia levanta sua cabeça e a deita na beira da cama, olhando para mim. Afago-a, e ela deita a cabeça de novo no piso, como se estivesse se preparando para dormir.
Personality Disorder Test Results
Paranoid |||||||||||| 50%
Schizoid |||||||||||||||||||| 90%
Schizotypal |||||||||| 38%
Antisocial |||||||||||||| 54%
Borderline |||||||||||||||||| 78%
Histrionic |||||||||||| 46%
Narcissistic |||| 14%
Avoidant |||||||||||| 50%
Dependent |||||||||||||| 54%
Obsessive-Compulsive |||||||||||||| 58%
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personality tests by similarminds.com
(É uma crônica que escrevi para uma revista que esta pessoa, esta outra e eu
diagramamos para um trabalho da faculdade.)
Para começar, sou um ouvinte compulsivo de música clássica. Sim, eu tenho dezenove anos. Meu conhecimento de música popular é praticamente nulo, não por desgosto ou preconceito, mas por parca audição mesmo, porque esse negócio de ouvir música clássica pode ser um tanto viciante. Fora um tanto de Beatles aqui, um Pink Floyd ali (com efeito, meu favorito), alguma coisa da Elis Regina que ouvi bastante quando criança, um pouco do Chico Buarque aqui e acolá, fica a névoa. (E o normalmente inconfesso gosto por Abba que herdei de meus pais.)
Ah, e nunca tive o costume de assistir à MTV. Minto: há alguns anos, apreciava as (patéticas) habilidades dos membros dos times de futebol do Rockgol. E depois ia fazer outra coisa, ler um livro antes de dormir, sei lá. Acho que era na época em que eu estava lendo Umberto Eco, e eu tentava ser basicamente um não-adolescente de quatorze anos, por alergia aos camaradas da mesma idade.
Então, mas que diacho. Progredi ligeiramente no que se refere à música: ouvi um pouco de of Montreal e de The Postal Service, por recomendação de um amigo semi-emo (o lado não-emo; felizmente, o outro está muito ocupado para fazê-las); também tenho ouvido algum Radiohead, Franz Ferdinand, um par de outras coisas. Com uma concentração de uns 2% de gosto musical 19-year-old…-ish, talvez seja a hora de dar uma chance ao pobre canal de TV. Eles precisam da minha audiência.
Então, sentei à frente da TV e passei umas horas apreciando o espetáculo, a começar por alguns clipes. Não posso dizer que todas aquelas músicas sejam do meu gosto, mas encontrei um punhado que me agradou consideravelmente – uma grata surpresa. Depois assisti a algo notavelmente similar a Whose Line Is It Anyway?, o que significa que também foi bastante agradável. (Não repare, só gravo os nomes dos programas lá pela quinta vez que os vejo.)
Em algum momento depois desse programa, acabei adormecendo. Quando acordei, havia dois sujeitos sentados, dentro do que parecia um quarto com um computador, e passando a maior parte do tempo enfileirando tiradas irônicas – engraçado, embora aqueles 2% impliquem que eu não tenha entendido metade das piadas.
Nada mal, então, eh? A experiência nem me matou. Muito. Agora vou pra cama, ouvir a sétima de Beethoven e dormir.